O contexto das eleições presidenciais do Brasil permeadas por um discurso cristão fundamentalista.



Um esboço da influência religiosa de caráter fundamentalista cristão, nas eleições no Brasil em 2018. 2. Uma visão psicanalítica do fundamentalismo religioso. (port.)



Cristina Aparecida Brolhani, 02/03/2019, Brasilia
SPBSB (candidata) / zeitgeist@lex-press.com.ar

 

RESUMO

O presente artigo visa elaborar um esboço da influência religiosa de caráter fundamentalista cristão, nas eleições no Brasil em 2018. Para cumprir este objetivo buscou-se inicialmente uma compreensão socialmente mais ampla do fundamentalismo religioso, alicerçada numa compreensão que Freud tinha da religiosidade e de como esta leva ao esvaziamento de sua capacidade de representação e de formação do Eu ideal. É precisamente este narcisismo ferido que leva à busca externa de um pai, cuja função protetora é ofuscada pelo papel predominantemente vingador, cuja missão precípua é corrigir os males e descaminhos históricos da sociedade brasileira.

Palavras chaves: política no Brasil, fundamentalismo religioso, narcisismo, líder messiânico, perversão.

A campanha eleitoral de 2018 foi marcada pela forte presença do discurso religioso de cunho evangélico, em especial o veiculado pelo movimento neopentecostal que se propagou mais intensamente entre a população mais pobre que, desde 2014, se encontra ainda mais fragilizada pelos efeitos acumulados de recessão e estagnação econômica que estende um rastro de desesperança, insegurança e desemprego sobre as famílias que residem nas periferias e nos bairros de classe média das grandes metrópoles brasileiras.

Este contexto de crise social, econômica e psicológica alimenta crescentemente o desencanto com a política e os políticos deixando um vazio de perspectiva, afeto e racionalidade no comportamento de parcelas crescentes da população brasileira que se tornou presa fácil da polarização intolerante e simplificadora dos populismos que diuturnamente infantilizam adultos nos noticiários e programas televisivos, nas novelas e principalmente nas redes sociais.

Não por acaso, as redes sociais no Brasil se distinguem por suscitar valores bastante conservadores, como a manutenção da família nuclear, não aceitação do feminismo, da homossexualidade, da liberação do aborto e assim por diante. Além disso, perante a forte onda de violência, propaga a flexibilização dos limites para o porte de armas para dotar a população de meios próprios de defesa e de segurança.

Desta forma, utilizando-se da incitação generalizada do ódio reprimido nos eleitores, as campanhas que elegeram o atual presidente da República e a maioria dos senadores, deputados federais e estaduais e governadores dos Estados e do Distrito Federal foram marcadas por um discurso de intolerância dirigido especialmente para seus potenciais eleitores que patrocinaram e continuam patrocinando ondas de violência contra homossexuais, representantes do LGBT, de mulheres e de negros.

O principal símbolo da campanha presidencial que veio a ser também o do governo do atual Presidente eleito do Brasil revela a força dada à esfera religiosa, além de representar o retorno de um patriotismo, que já era dado como perdido: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Esta é uma expressão perfeita da influência de valores cristãos que hoje passam a permear a ideia de governo e a forma de governar no Brasil, colocando em xeque o estatuto e os princípios do estado laico, inscritos em todas as nossas constituições republicanas.

Rocha (2014) afirma que a política partidária brasileira tem incorporado cada vez mais o discurso religioso sob o impacto principalmente da expansão das igrejas evangélicas, que possibilitaram a constituição de uma expressiva bancada no Congresso Nacional em condições de influenciar a formulação e aprovação de leis que ameaçam a liberdade de expressão, a despeito dos valores em transformação nas secularizadas sociedades contemporâneas e crescentemente globalizadas.

O que chama a atenção neste discurso político-religioso é a forma e o conteúdo absolutista e anti-iluminista incorporados em sua formulação recheada de dogmatismos que afrontam as conquistas da civilização ocidental construídas e aperfeiçoadas ao longo dos últimos quatro séculos. Além do mais, este discurso político-religioso é a expressão de um autoritarismo que envolve relações de poder consagradas por um Deus que asseguraria a Ordem e o Progresso em detrimento dos anseios de justiça social, de liberdade, igualdade e democracia, já que nem todos são os escolhidos por Deus. Acompanhados deste discurso, convive-se com uma extrema intolerância dirigida especialmente contra as comunidades LGBT, de feministas, de negros e demais integrantes de movimentos sociais tratados como inimigos da ordem vigente.

Observamos que em momentos de elevada incerteza global e nacional, a busca religiosa preenche, acima de tudo, uma exigência de proteção e de segurança. O que assusta são as consequências do aumento de autoritarismo, de violência e intolerância, que reforça o apelo a fundamentalismos no exercício da fé religiosa.

Segundo Bingemer (2018), a Bíblia e os versículos bíblicos (citados fora de contexto e até incorretos) traduzem o desejo de um grupo que se utiliza da palavra divina para buscar a adesão de um público inseguro que legitime o poder de políticos que adotem esta forma autoritária e intolerante de governar, a exemplo dos atuais incentivos ao armamento da população e à militarização das escolas brasileiras.

Urge portanto reverter a dinâmica destes acontecimentos regressivos que representam desprezo às conquistas já seculares alcançadas no âmbito dos direitos humanos, frutos de difíceis e incansáveis lutas e que neste contexto acabam por se transformar em ameaça a uma ordem já morta e ultrapassada que alguns infelizmente insistem em fazer com que o passado caminhe à frente do futuro.

  1. UMA COMPREENSÃO DO FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO NA ATUALIDADE.

    A historiadora das religiões Karen Armstrong (2001) constata o surgimento de uma devoção militante popularmente conhecida como fundamentalismo e demonstra que, no final da década de 1970, os fundamentalistas começaram a se rebelar contra a situação do secularismo e a dar à religião uma posição de superioridade, colocando em cheque a hegemonia de uma cultura científica e secular que nasceu no Ocidente e que se arraigou no resto do mundo, questionando as verdades religiosas. Para a mesma autora, as estratégias de ataque utilizadas pelos fundamentalistas revelam o medo da aniquilação e a tentativa de preservar sua identidade resgatando práticas dogmáticas e confessionais.

    Este movimento de resgate da identidade religiosa enfraquecida também é citado pelo sociólogo Manuel Castells (1999) como reação às formas tradicionais de socialização. Ao forjar uma identidade de resistência ao fundamentalismo religioso, ainda que possa se apresentar como uma reação às configurações sociopolíticas da modernidade e, paradoxalmente, uma experiência moderna, pois no embate sociopolítico entre a razão secularista e a fé religiosa houve uma "incorporação", uma assimilação dos ideais sociopolíticos da modernidade aos preceitos religiosos. Há uma convivência concomitante com formas arcaicas de práticas religiosas com o racionalismo, o pragmatismo, a ideia de progresso tecnológico como garantidor da felicidade e bem estar de todos, pelo poder da ciência e do capitalismo. 

    Após a revolução tecnológica, com o aumento exacerbado do consumo, temos o que Zymund Bauman (1998) denominou de “sociedade líquida”, marcada pelo descartável, pela pulverização do sujeito, pela cultura do narcisismo, exibicionismo e autocentrada e que não oferece alternativas para um futuro com alguma estabilidade. Este espaço nos remete novamente ao que Max Weber (1999/1020) chamou de desencantamento do mundo, cujas características são marcadas pela efemeridade e não propiciou nos séculos seguintes à solidariedade nem as trocas intersubjetivas, acentuando o sentimento de desamparo e abrindo espaço para o fundamentalismo religioso e para a violência.

    Como consequência, fundamentalismo religioso ignora a alteridade, apresentando respostas fechadas e prontas a todas as perguntas. O diálogo com o diferente não é tolerado, o qual é visto como inimigo a ser destruído.

     

  2. UMA VISÃO PSICANALÍTICA DO FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO.

    Em O futuro de uma ilusão, encontramos o pensamento de Freud (1927-1974) relacionando à crença religiosa à busca de conforto e proteção infantil. Desta forma, o setor humano estaria relegado a uma situação de desproteção inicial que na falta de um processo de simbolização das introjeções parentais de amor e ódio, levariam à uma busca religiosa ligada à necessidades infantis primárias de afeto e proteção. Neste sentido, considerando a situação de desamparo social, econômico e político do povo brasileiro, encontramos elementos que marcam essa busca religiosa exacerbada.

    Freud explorou a tensão entre a premissa religiosa e a científica (Freud, 1927/1975). Partidário declarado da segunda relegou a primeira a uma ilusão, sem, com isso, desprezar o fato dela ser uma poderosa maneira de se lidar contra o sofrimento psíquico e por prover os homens de respostas que aplacam as incertezas de sua existência (Freud, 1927/1975). Freud supôs que a religião não se deixaria dominar facilmente diante da ciência.   No ensaio O futuro de uma ilusão, Freud (1927/1975) concebe as ideias religiosas como uma fonte de conhecimentos e ensinamentos, mas aponta que, diferentemente de outros conhecimentos, as ideias religiosas "resistem" a que se lhes ponham a prova. Por não se submeterem ao "teste de realidade", as idéias religiosas caem na categoria da ilusão e nos deixa ver sua ligação com o desejo: "O que é característico das ilusões, diz Freud mais adiante, é o fato de derivarem de desejos humanos" (Freud, 1927/1975, p. 44). Nesse texto, Freud equipara ilusão e crença, a fim de fundamentar a hipótese de que a crença religiosa tem um estatuto de ilusão e que esta deriva do desejo de desfrutar da proteção, da benevolência e do amor de Deus como representação do pai protetor e benevolente da infância. Seu suporte psíquico é o desamparo original do infans que persiste na vida adulta.

    Este aspecto da busca do pai protetor marcou o que foi chamado de polarização nas eleições presidenciais. As pesquisas de intenção de voto marcaram a oscilação entre o ex-presidente que era de esquerda – mas foi impedido de participar do pleito, pois havia sido preso, acusado de corrupção - e de um candidato de extrema direita. Consequentemente evidencia-se a busca de um candidato messiânico no qual a população insegura e manipulada por um discurso religioso cristão fundamentalista e pelas mídias digitalizadas sociais, chegou-se a denominar este candidato de extrema direita de mito, isto é, uma pessoa que solucionaria os problemas mais sérios da nação brasileira.

    Para compreender essa vulnerabilidade tocada na população pela campanha do ethos religioso confessional e fundamentalista, constata-se a necessidade de se remeter à formação do narcisismo primário. Aqui encontramos componentes para a formação do ideal de eu no qual de forma concomitante refletem aspectos destrutivos ligados à pulsão de morte.  A dificuldade de se transpor para a formação do eu ideal, do narcisismo secundário relacionado à instauração do desejo e formação da capacidade simbólica psíquica, irá fragilizar o psiquismo o qual buscará identificações com figuras autoritárias e onipotentes, como as que existem na Religião. Na dificuldade de domar a força pulsional, dominada pelo narcisismo ferido, o eu busca uma projeção em algo exterior e Onipotente, de onde viria a figura de um deus salvador.

    No contexto de seu estudo sobre o narcisismo (1914), Freud observa que, no decorrer da existência, o eu ideal pode ser projetado sobre figuras substitutivas e que o objeto da paixão amorosa poderia ser um desses objetos substitutos do eu ideal infantil. O mesmo poder-se-ia dizer dos ideais dos fundamentalistas religiosos. Dir-se-ia que, em uma tentativa ilusória, o apaixonado amoroso, bem como o fundamentalista religioso, querem recuperar o estado de plenitude psíquica e de complementaridade narcísica - o paraíso de suas infâncias - que foi para todo sempre perdido e que, realmente, jamais existiu, a não ser nas fantasias das crianças, nos sonhos dos adultos e nos mitos da Humanidade.

    A doutrina religiosa e a causa política, às quais os fundamentalistas aderem incondicionalmente, são, portanto, substitutos do Eu ideal de suas infâncias. No ato de transferir ao grupo, ou ao seu líder, a atitude de admiração incondicional, o indivíduo faz, ao mesmo tempo, a experiência de uma satisfação narcísica, porque, pelo mecanismo da identificação, ele faz um só com o grupo a que pertence. Como diz Freud em Psicologia das Massas, o indivíduo se despoja de seu eu ideal próprio e particular para projetá-lo sobre o eu ideal do grupo ou de seu líder. Os ideais, enquanto projetos do Ideal do eu, em vez de fechar o eu numa ilusória plenitude narcísica, tornam possível, por meio da sublimação e da capacidade criativa do eu, a abertura de novos horizontes, que possibilitarão novos investimentos objetais. Sem dúvida, deve-se reconhecer que existe sempre o perigo de uma possível regressão dos projetos do ideal do eu às satisfações ilusórias do eu ideal. E quando isto acontece, entra em cena a perversão dos ideais.

    Freud nos advertiu a possibilidade deste perigo quando, no seu estudo Psicologia das massas e análise do eu (1921/1975), articulou a paixão amorosa com a hipnose. Nos dois casos, tanto o objeto da paixão amorosa, quanto o objeto da relação hipnótica, é um substituto do ideal do eu que retrocede à condição de eu ideal. E quando isto acontece, o ideal do eu perde a sua função crítica e mergulha naquilo que Freud chamou a "cegueira do amor" - (1921/1975, p. 106).

    Pois bem, é esta cegueira do amor e ausência da função crítica do ideal do eu que abrem para o eu o mundo da perversão, pois, como diz Freud, elas podem transformar um homem em um ser sem remorsos e em um verdadeiro assassino. Por isso, pode-se dizer que a ausência da função crítica do ideal do eu, juntamente com as formas ilusórias de idealização narcísica do eu ideal, permitem que possamos falar das raízes perversas do fundamentalismo religioso.

     

  3. CONSIDERAÇÕES FINAIS.

    De forma geral, o fundamentalismo religioso que permeou toda a campanha presidencial tem revelado aspectos de identificação narcísica infantil por meio da figura de um candidato que se auto proclamou como um grande pai messiânico, capaz de resolver as questões mais emergentes do país, como promessas de combate à corrupção, retorno aos bons costumes tradicionais cristãos, reorganização da economia e combate à violência assegurando melhoras na segurança pública.

    No entanto, a condução por mídias digitais, a qual veio com mensagens agressivas e violentas em relação à esquerda brasileira, a intolerância aos movimentos sociais, em especial o LGBT, feminismo, sem teto e sem-terra, mobilizou o inconsciente de grande parte da população. Considera-se que a fragilidade psíquica de vários segmentos da população, influenciados maciçamente por um discurso paradoxal que ao mesmo tempo trazia esperança de ordenação social, e de ódio ao que poderia afetar à ordem, levou à intolerância e atitudes extremas de violência em relação às minorias, em especial à população homossexual. Freud nos leva a compreender essa vulnerabilidade de grupos sociais que se deixam dominar e que reflete dificuldades de elaboração no narcisismo secundário, o qual esvaziado de sentido, se expressa de forma perversa, em especial no fundamentalismo religioso que permeou a campanha do presidente eleito e afeta visivelmente o início do seu governo.

     

  4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Armstrong, K. (2001) Em nome de Deus. O fundamentalismo no judaísmo, no   cristianismo e no islamismo. São Paulo- SP: Companhia das Letras.

Bingemer, M.C. (2015) Mística e Testemunho em Koinonia. São Paulo- SP: Editora Paulus.

Castells, C. (1999) O poder da identidade. São Paulo – SP: Paz e Terra.

Freud, S. (1974). Sobre o Narcisismo: uma introdução.  In S. Freud Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (J. Salomão, trad., Vol. 14). Rio de Janeiro, RJ: Imago (trabalho original publicado em 1915).

Freud, S. (1975). Além do Princípio do prazer. In S. Freud Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (J. Salomão, trad., Vol. 18). Rio de Janeiro, RJ: Imago (trabalho original publicado em 1920).

Freud, S. (1975). Psicologia de Grupo e Análise do Ego In S. Freud Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (J. Salomão, trad., Vol. 18). Rio de Janeiro, RJ: Imago (trabalho original publicado em 1921).

Freud, S. (1975). O Futuro de uma Ilusão In S. Freud Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (J. Salomão, trad., Vol. 21). Rio de Janeiro, RJ: Imago (trabalho original publicado em 1927).

Bauman (1998). O mal estar na pós-modernidade. (M. Gama e C.M. Gama, trad.). Rio de Janeiro – RJ: Zahar.

Rocha, Z. A perversão dos ideais no fundamentalismo religioso. Revista Psicopatologia Latino Americana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, vol. 17, n. 3, supl. 1, p. 761-774, set, 2014.

Weber, M. (1999) Tipos de comuniadad religiosa (Socíologia de la Religión). In M. Weber. Economia y Sociedad. (J.M. Echavarría, trad.) México: Fondo de Cultura Económica. (trabalho original publicado em 1922).